Brasília - DF
16 de agosto de 2017
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Da criação, do nada e do pré-existente

Tudo tem que ter um começo, como diria Sancho Pança; e esse começo deve estar ligado a algo que vem antes.” – Mary Shelley

Já há algum tempo peguei uma edição do “Tao Te Ching” para ler de uma tradução de um filósofo brasileiro que não me recordo o nome (nota para pesquisa e estudo), e que o mesmo em sua apresentação propunha a distinção entre “criar” e “crear”.

Para o autor “criar” seria para reproduzir ou manter. Assim “criamos” vacas, “criamos” filhos e mesmo “criamos” uma obra-prima, visto que nada vem de nada original. O ato de “crear” do nada seria possível apenas a Deus, mesmo a nossa imaginação vem de algo já existente. Um caso de aplicação material de um ponto de vista metafísico. Agora me ocorre que o autor na verdade usa “criar” para o ato divino e “crear” para o ato de cópia ou manutenção do homem. Não importa por ora, pois é uma proposta sintética e não analítica a do uso dos termos, importante é nos apercebermos do significado.

“O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol. ” – Eclesiastes 1:9, na Nova Versão Internacional.

Podemos então assumir um axioma: “nada vem do nada”. Podemos tanto entender isso de uma forma necessária e da forma contingente.

O problema de determinar o nada é o que nos leva a questões que ainda não temos na história ocidental experimento no campo científico que se proponha a tal resposta.

A percepção do “zero”, do nada e do vazio e além de tudo, do inexistente.  Tais questões se perdem na linguagem e na percepção e tais problemas levam à solução final de que a existência se fundamenta na própria linguagem. Problema similar e não menos complexo é o da eternidade, imortalidade e perenidade.

Daqui temos que o início e o fim é a origem dos credos. A ciência não consegue ainda propor (por não ser sua vocação ou por falta de interesse; ou mesmo por encontrar-se em um período inicial ainda) um método para responder a problemática do início de tudo e do fim das coisas. Para isso as religiões tomaram de assalto o campo, ora monopolizando e ora recriando o universo na mente das civilizações e culturas.

A filosofia nesse caso nos leva do fim ao inicio.  A realidade é circular? A verdade existe? Enfim, dentro de estruturas materiais aceitas a percepção da verdade é possível ser compreendida. Mas resolve o problema da Criação?

Se algo for do nada criado, deveria ser nada, porém o que existe antes da Criação? Nossa percepção nos leva a crer no pré-existente e na manutenção de uma existência virtual. Se realmente existimos ou mesmo se existe livre-arbítrio. Sabemos que só criamos na ideia e moldamos na matéria. Porém essa ideia vem da percepção da matéria (defendo aqui a volta do acento em “ideia” para ficar “idéia” e fazer parzinho com “matéria”).

Não me recordo se foi Geertz quem propõem que o papel do antropólogo é o de levantar as questões, não de dar as respostas. Fazer apenas as perguntas não consiste em ser cético. O segredo está em como fazer as perguntas (nota para assistir “Eu, Robô” com Will Smith, de Alex Proyas). Fazer as perguntas, sendo que elas devam existir depois das respostas (num mundo ideal materialista) é a rigor necessidade científica. Conseguir fazer uma pergunta sem resposta é uma arte.

 

Claudio Siqueira

Socio-Gerente da Empresa Café Cafuzo
Designer gráfico da Empresa H2Foz

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