Brasília - DF
16 de agosto de 2017
Foto: Júlio Cordeiro / Agencia RBS

Julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE é saída para a crise política, defende Marina Silva

Ex-senadora reiterou apoio à Lava-Jato e afirmou que as investigações estão fazendo “a reforma política mais importante na prática”

Candidata à Presidência nas eleições de 2010 e 2014, a ex-senadora Marina Silva (Rede) afirma que “a saída” para a crise política no Brasil passará pelo julgamento da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). De acordo com ela, “não se pode banalizar” as suspeitas contra o presidente Michel Temer, que é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da Justiça após as revelações da delação da JBS.

Em entrevista à Rádio Gaúcha, Marina Silva reiterou o apoio à Operação Lava-Jato e afirmou que as investigações do Ministério Público Federal estão fazendo “a reforma política mais importante na prática”.

Como a senhora, que foi uma espécie de terceira via nas últimas eleições, avalia a crise política no Brasil?

É um momento dramático da vida do nosso país e o prejuízo maior quem está sofrendo é a população brasileira. Estamos vivendo uma crise que é política e econômica, mas principalmente de valores, onde há uma banalização dos erros e da corrupção como se fossem normais as coisas que estão sendo reveladas pela Lava-Jato. Essa crise já levou a mais de 14 milhões de desempregados. Se nós considerarmos que teremos pelo menos três pessoas que dependem de um emprego, multiplica isso por três e você vai verificar que a crise que foi produzida pelo PT e pelo PMDB nesses últimos 13 anos já levou mais pessoas à miséria do que aquilo que foi tirado com o bolsa-família. Infelizmente, a maior parte da política deixou de resolver problemas e passou a criar problemas. E não se pode, em hipótese nenhuma, naturalizar, banalizar esses acontecimentos do presidente da República sendo investigado e dando audiências fora do horário normal, sem registro na agenda, concordando com práticas criminosas.

Em entrevista à Gaúcha, o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, garantiu que Michel Temer completa o mandato até o final de 2018. A senhora tem o mesmo entendimento?

Acho que o desfecho deveria ser aquele que favoreça uma saída que, de fato, tire o país desse poço sem fundo. Estou dizendo, desde 2015, que não podemos insistir nos atalhos que estão nos levando a um abismo atrás de outro. E obviamente que, agora, nós temos uma saída, que é o TSE. Outra seria, de acordo com a Constituição, a renúncia, mas a renúncia depende de um ato de consciência. Se o presidente não tem nem consciência de que seja um erro, então fica muito difícil ter consciência de que a economia brasileira não pode continuar sendo prejudicada, de que ele não tem popularidade nem credibilidade, nem autoridade ética para fazer mudanças tão significativa na vida das pessoas como é o caso da Previdência e da reforma trabalhista. Então, essa saída já não foi possível. A outra é o impeachment, mas é um processo demorado. O que alcança a legalidade e dá uma saída para o Brasil é o julgamento no TSE.

Tenho insistido na seguinte questão: a Justiça criminal está fazendo um esforço enorme para passar o Brasil a limpo. A Justiça eleitoral não pode fazer diferente. Já está fartamente comprovado que houve, sim, abuso do poder econômico, caixa 2 e dinheiro da corrupção para a eleição da chapa Dilma-Temer. E comprovadas todas essas irregularidades, o correto é a Justiça eleitoral ser exemplar para que o crime eleitoral não compense. Qual é a forma de punição? A cassação do mandato, a perda dos direitos políticos, além das penalidades criminais. Espero que prevaleça o sentido de defesa dos brasileiros e não da defesa de pessoas muito poderosas que sempre estiveram no poder, que não sabem viver sem o poder e que vão às últimas consequências para manterem-se no poder em prejuízo do futuro do Brasil.

Em 12 de outubro de 2014, foi publicada uma reportagem dizendo “Marina Silva declara apoio a Aécio Neves no segundo turno”. Hoje, sabendo de todas as informações a respeito de Aécio Neves, a senhora se arrepende daquele apoio?

Com as informações que tínhamos, era o que foi possível fazer. O apoio foi dado em cima de uma carta-compromisso que foi apresentada em Pernambuco ao candidato Aécio Neves e, dessa carta, o compromisso era a demarcação das terras indígenas pelo Executivo e não pelo Legislativo, a continuidade de políticas públicas que institucionalizasse o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, todas as medidas para favorecer a juventude, como é o caso do Fies, Prouni, Pronatec, e a questão da reforma agrária, bandeiras que não estavam na plataforma do candidato. Então, declarei o meu apoio.

Hoje, com as informações que temos, com certeza nem em Dilma, nem em Temer e nem em Aécio Neves a população brasileira teria votado porque as eleições de 2014 foram fraudadas. Quem foi para o segundo turno, tanto Dilma-Temer quanto Aécio, faziam uso dos mesmos expedientes. Fico muito feliz e agradecida a Deus de ter tido 22 milhões de votos passando pelos piores ataques, as piores calúnias, mas foram votos dos brasileiros que espontaneamente, conscientemente deram o seu voto. Sei que muitos brasileiros votaram e não têm nada a ver com isso, não tem por que culpabilizá-los por aqueles que praticaram corrupção, mas houve uma fraude eleitoral e é preciso devolver à sociedade brasileira o direito a fazer, agora, uma escolha, com base em programa, para que se faça a transição.

Infelizmente, o que eu dizia, que os partidos da polarização pareciam que se preferiam agora dá para entender porque se preferiam: de um lado, PT e PMDB, do outro lado, o próprio PSDB. Eles estavam intrincados na mesma altura e profundidade como revela agora a Lava-Jato.

De que forma o Brasil pode ser passado a limpo e o que é preciso para que não se repitam essas crises que são já sistêmicas no país? Por onde a reforma política deve transitar?

A reforma política mais importante já está acontecendo na prática: é o trabalho da Lava-Jato. O trabalho que está sendo feito pela Polícia Federal, pelo juiz Sergio Moro, o trabalho do procurador Rodrigo Janot, todo esse trabalho já é uma reforma política na prática. Eles estão fazendo, na prática, aquilo que levaria pelo menos uns cem anos para que a gente pudesse, do ponto de vista do processo da inércia natural da política, realizar. Então, a primeira questão é: a Lava-Jato está fazendo uma reforma política na prática, está mostrando que a política não deve ser um espaço para quem quer fazer negócios espúrios, nem políticos nem empresários. Para que a gente tenha uma reforma política, primeiro se deve mudar de postura, e a mudança de postura é essa: todo apoio à Lava-Jato, não bloquear as investigações.

Agora, nós estamos vendo uma série de medidas tentando o tempo todo arrefecer a Lava-Jato, uma união dos diferentes partidos que nunca se juntaram tentando arrefecer a Lava-Jato. Temos que institucionalizar as conquistas que a Lava-Jato está alcançando, dar apoio e entendendo que Justiça não é vingança, Justiça é reparação. O Brasil está vivendo um momento difícil e nós temos que encarar aquilo que está sendo feito como ato de reparação, de interditar aqueles que estão fazendo mal ao Brasil e, inclusive, fazendo mal a si mesmo: como é que alguém que agora está sendo taxado de ser bandido, de ser incompetente, de ser falastrão, conseguiu mais de R$ 6 bilhões do BNDES? Como é que alguém que está sendo tão desqualificado agora conseguiu tantos apoios no governo e tanta audiência?

A sua campanha também teve dinheiro da JBS.

Mas, na minha campanha, todas as doações estão legitimamente declaradas e, diretamente, não recebi. Houve uma transferência do comitê financeiro da campanha anterior, em que infelizmente o Eduardo (Campos, do PSB) morreu, e dentro dessa transferência, havia a doação da JBS. Nunca tive contato com eles e a Lava-Jato deve investigar toda e qualquer pessoa que entender que tenha qualquer dúvida. Eu não sou citada, inclusive o próprio depoente diz que, quando o Eduardo morreu, não fazia mais sentido fazer as doações.

O empresário Marcelo Odebrecht contribuiu com R$ 1,25 milhão para a sua campanha. Essa doação ocorreu depois de um encontro que a senhora teve com ele em um hotel. Quando o Marcelo deu esse dinheiro, ele impôs alguma condição? Como a senhora interpretou esse investimento de mais de R$ 1 milhão da Odebrecht na sua campanha?

Em primeiro lugar, não foi um investimento. Foi uma reunião que foi às claras em um hotel ao lado da portaria exatamente para não ficar nenhuma dúvida e o próprio depoente diz que foi uma reunião onde se tratou de propostas, estratégias e valores. Não valores econômicos: valores para o Brasil. E o que foi doado está declarado ipsis litteris.

As pessoas deveriam estar fazendo a seguinte questão: até que enfim houve uma reunião em que se tratou de propostas, ideias e o próprio depoente diz que só tratou de ideias, que não houve qualquer tipo de contrapartida até porque a minha campanha eu dialoguei com empresários, trabalhadores, tive doações de empresas, doações de pessoas físicas e toda doação é exatamente o que está na prestação de contas, até porque como eu era uma pessoa totalmente fora do establishment, eles próprios reconhecem que era um encontro para me conhecer. Ora, fui senadora por 16 anos, fui ministra do Meio Ambiente para os projetos mais importantes desse país por mais de cinco anos e não tem um empresário que diga que fez qualquer tipo de abordagem ilícita na minha gestão.

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