Brasília - DF
16 de agosto de 2017

ALEXANDRA KOLLONTAI: OS INSTINTOS E O AMOR EM TEMPOS REVOLUCIONÁRIOS.

“Não podemos deixar tudo que pertence ao campo da moral ou a outras construções ideológicas à disposição total do liberalismo burguês. Para nós, a emancipação feminina não é um sonho, nem mesmo um princípio ético, mas uma realidade concreta, um fato que diariamente precisa ser tornado real”, escreveu Alexandra Mihaylovna Kollontai, no livro “Bases sociais das questões feministas”, de 1906.

“Nós, conscientemente, não podemos deixar tudo que pertence ao campo da moral ou a outras construções ideológicas à disposição total do liberalismo burguês. Para nós, a emancipação feminina não é um sonho, nem mesmo um princípio ético, mas uma realidade concreta, um fato que diariamente precisa ser tornado real. O que é “utópico é a crença feminista de que novas e livres formas de amor, casamento e família são possíveis sem uma transformação radical de todo o sistema social”. Assim, Alexandra Mihaylovna Kollontai escrevia na introdução do seu livro “Bases sociais das questões feministas” (социальные основы женского вопроса) de 1906. A menina que nasceu em São Petersburgo, em 1872, filha de pais nobres, somente foi conhecer a filosofia marxista, os escritos de Plekhanov e os bolcheviques depois de casada e mãe. A transformação de nobre em revolucionária se deu através de muito estudo, ao que seu marido reputava como “uma ofensa pessoal”.

Kollontai foi testemunha ocular do Domingo Sangrento (22/01/1905), quando a guarda pessoal do czar massacrou manifestantes que marchavam pacificamente até o Palácio de Inverno, em São Petersburgo, pedindo pão. O episódio é o deflagrador dos movimentos de 1905, conhecidos como “O ensaio geral”. Nas palavras de Kollontai: “Vi milhares de crianças mortas a tiro ou feridas além da possibilidade de sobrevivência”. Esta experiência marcaria toda sua trajetória política.

Em 1905, Kollontai já era conhecida por escrever artigos críticos acerca da situação russa e do marxismo, e por fazer “leituras coletivas” com operários de diversas fábricas. A verdade é que Kollontai não precisou dos Bolcheviques ou Mencheviques para se fazer política. Após sua participação nos eventos daquele ano, e por ser já conhecida crítica do regime dos Romanov, Kollontai é obrigada a se exilar (primeiro na Suíça e depois Alemanha) entre 1908 e 1917. Neste período, produz boa parte de seus trabalhos afirmando que “tenho mantido a luta pela emancipação e igualdade das mulheres mesmo com o duplo desafio de ser cidadã e mãe” demonstrando a dificuldade de uma mulher, mãe viver no exílio.

Retornando a Rússia após fevereiro de 1917, apresentou à Duma (governo provisório) um projeto de lei para criar um seguro maternidade. O resultado de pesquisa e argumentação em favor do projeto rendeu o livro “Sociedade e Maternidade” (Общество и материнство) publicado em 1916. Kollontai afirma a “necessidade” de qualquer governo de se envolver diretamente na proteção e no bem-estar da mulher grávida e da criança na primeira infância. Em que pese a extensão dos argumentos, o governo provisório rejeita a lei.

Em 1915 se filia aos bolcheviques e afirma que “cruzaria o Rubicão”, pois sentia que os bolcheviques estavam fadados por “seus sacrifícios a algo grandioso”. Durante a guerra, Alexandra Kollontai trabalha em estrita conexão com Lênin e é uma das responsáveis pela organização da III Internacional. As obras de Kollontai passam a ser impressas na Noruega, Suécia, EUA e Suíça e são tão conhecidas quanto as de Lênin naquele momento. Sua capacidade intelectual, sua proximidade com os bolcheviques e sua energia fazem-lhe a primeira mulher eleita para o soviet de Petrogrado. Em sua biografia, afirma “se me perguntarem qual foi o maior momento da minha vida, o mais memorável eu digo, sem dúvida, o momento em que o poder soviético foi proclamado em outubro de 1917”.

Já como Comissária Nacional da Seguridade Pública, no governo bolchevique, Kollontai coloca em prática a proteção à maternidade e aos trabalhadores em idade avançada, fazendo do governo revolucionário a vanguarda da proteção social às mulheres. Segundo o historiador Mark Steinberg, “nenhum marxista russo jamais escreveu de forma tão explícita sobre gênero, intimidade ou emotividade e de forma tão fortemente ligada às questões da revolução socialista”. Profética, Kollontai afirma que “na idade da pobreza capitalista, das contradições de classe e da moral individualista, nós todos vivemos e pensamos sobre o gélido sentimento da inescapável e inevitável solidão espiritual” (“A Nova Mulher” ensaio de 1913).

Kollontai fala de sexualidade, de amor, de prazeres no início do século XX com uma desenvoltura peculiar. Sempre buscando o Futuro e a “Nova Mulher” que surgiria através da luta contra a “prisão moral” e a “servidão amorosa”, buscando algo além da “monogâmica e possessiva forma de família” que necessariamente gerava a “subordinação da mulher”. Kollontai afirmaria que “o código moral sexual é parte integral da ideologia de classe burguesa” e por isto mesmo a questão sexual não poderia ser colocada em separado da luta proletária. “Os proletários precisam descobrir que as antigas formas de virtudes femininas são amarras que previnem a transformação social” e que para romper com isto a mulher precisaria se tornar um “ser humano com valor próprio”, não por ser mãe ou fêmea.

Em 1922, foi nomeada embaixadora na Noruega, depois no México e na Suécia trabalhando até 1945. Foi uma das primeiras mulheres a ocupar o cargo de embaixadora no mundo, vindo a falecer em 1952. Na plenitude de sua juventude, Kollontai escreveria no jornal Pravda em março de 1917: “Não fomos nós mulheres as primeiras a ir para as ruas lutar por liberdade junto com nossos irmãos, a morrer por isto se necessário? Então porque exatamente quando se começa a construir uma nova Rússia estamos sentido o medo da liberdade e vamos ignorar metade da população livre deste país?”

Alexandra Kollontai é a própria revolução. Inescapavelmente.

*Fernando Horta é professor, historiador, doutorando na UnB.

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