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16 de agosto de 2017

Biografia – Mary Wollstonecraft

Mary Wollstonecraft ( /ˈwʊlstən.krɑːft/; Londres, 27 de abril de 1759 – Londres, 10 de setembro de 1797) foi uma escritora inglesa do século XVIII, assim como filósofa e defensora dos direitos das mulheres. Durante sua breve carreira, escreveu romances, tratados, uma narrativa de viagem, uma história da Revolução Francesa, um livro de boas maneiras, e livros infantis.

O trabalho mais conhecido de Mary Wollstonecraft é Uma defesa dos direitos da mulher (1792), no qual ela argumenta que as mulheres não são, por natureza, inferiores aos homens, mas apenas aparentam ser por falta de educação e escolaridade. Ela sugere que tanto os homens como as mulheres devem ser tratados como seres racionais, e concebe uma ordem social baseada na razão.

Até ao final do século XX, a vida pessoal de Wollstonecraft, que incluiu vários relacionamentos inconvencionais, foi alvo de mais atenção do que seus trabalhos. Depois de dois relacionamentos fracassados, com Henry Fuseli e Gilbert Imlay (de quem teve uma filha, Fanny Imlay), Wollstonecraft casou-se com o filósofo William Godwin, um dos precursores do movimento anarquista. Wollstonecraft morreu aos 38 anos de idade, dez dias após dar à luz sua segunda filha, deixando vários manuscritos inacabados. Sua filha − Mary Wollstonecraft Godwin − também se tornaria escritora, com o nome de Mary Shelley, a autora de Frankenstein.

Depois da morte de Mary Wollstonecraft, seu marido publicou uma Memória (1798) de sua vida, revelando seu estilo de vida menos ortodoxo, que lhe destruiu a reputação por quase um século. Contudo, com o advento do movimento feminista no virar do século XX, a defesa de Wollstonecraft pela igualdade das mulheres, e suas críticas à feminilidade convencional, ganharam cada vez mais importância.

Nos dias de hoje, Wollstonecraft é considerada uma das fundadoras do feminismo filosófico, e é comum que feministas citem tanto sua vida, como sua obra, como influências importantes.

Primeiros anos

Wollstonecraft nasceu em 27 de Abril de 1759 em Spitalfields, Londres. Foi a segunda de sete filhos de Edward John Wollstonecraft e Elizabeth Dixon. Embora sua família tivesse uma renda confortável durante os primeiros anos de sua vida, seu pai foi dissipando-a em negócios especulativos.

Como consequência, a instabilidade financeira da família cresceu, e foram várias vezes forçados a mudar-se de endereço durante a infância de Mary. A situação financeira da família chegou a ficar tão degradada que o pai de Mary a forçou a abrir mão do dinheiro que ela herdaria ao chegar à maturidade. Além disso, ele era violento a ponto de bater na mulher durante episódios de alcoolismo.

Na adolescência, Mary às vezes deitava-se à porta do quarto da mãe para protegê-la. Mary também assumiu um papel maternal em relação a suas irmãs, Everina e Eliza, durante toda a vida. Por exemplo, numa ocasião crucial em 1784, Mary convenceu Eliza − sofrendo, provavelmente, de depressão pós-parto, − a deixar o marido e o filho; Mary preparou-lhe a fuga, demonstrando sua tendência a contrariar normas sociais.

No entanto, as consequências foram graves: sua irmã foi alvo de condenação social e, como não podia casar-se novamente, ficou para sempre sujeita a uma vida de pobreza e trabalho pesado.

Duas amizades foram decisivas em sua juventude. A primeira foi com Jane Arden em Beverley. As duas amigas liam livros juntas e assistiam a palestras proferidas pelo pai de Jane, que se auto-denominava filósofo e cientista. Wollstonecraft deleitava-se na atmosfera intelectual da casa dos Arden, e valorizava bastante sua amizade com Jane, por vezes chegando à possessividade. Wollstonecraft escreveu-lhe:

“Criei noções românticas de amizade… Sou um pouco peculiar em minhas ideias sobre amor e amizade; tenho que estar em primeiro lugar, ou então em nenhum.” 

Em algumas das cartas de Wollstonecraft a Jane, ela já mostra algumas emoções depressivas e voláteis que a perseguiriam para o resto da vida.

A segunda, e mais importante amizade foi com Fanny (Frances) Blood, apresentada a Mary pelos Clare, um casal de Hoxton que iriam tornar-se figuras parentais para ela; segundo Wollstonecraft, Blood lhe abriu a mente. Descontente com sua vida em família, Wollstonecraft decidiu tomar um rumo independente em 1778, e aceitou o emprego de dama de companhia de Sarah Dawson, uma viúva residente em Bath.

Contudo, Wollstonecraft não se deu bem com a temperamental mulher (uma experiência que lhe serviu de referência quando descreveu o lado negativo dessa profissão em Pensamentos sobre a educação de filhas, 1787). Em 1780, Mary regressou ao lar, chamada para tratar da mãe, que estava à beira da morte. 

Depois da morte de sua mãe, em vez de regressar à casa de Dawson, Wollstonecraft foi morar com os Blood. Ao longo dos dois anos que passou com a família, Wollstonecraft foi percebendo que havia idealizado sua amiga Fanny, que estava mais ligada a valores tradicionais femininos do que ela. Mas permaneceu dedicada a Fanny e sua família por toda a sua vida; várias vezes prestou ajuda financeira ao irmão de Fanny.

Wollstonecraft havia imaginado viver uma utopia feminina com Fanny; fizeram planos para arrendar um apartamento juntas e para apoiarem-se emocional e financeiramente, mas o sonho caiu por terra dada a realidade de suas condições económicas.

Para poderem ter uma base financeira segura, Mary, suas irmãs e Fanny criaram uma escola em Newington Green, uma comunidade de dissidentes ingleses. Entretanto, Fanny logo ficou noiva e, após seu casamento, seu marido, Hugh Skeys, levou-a para Lisboa para tratar-lhe a saúde, que sempre fora precária. 

Apesar da mudança de ares, a saúde de Fanny deteriorou-se ainda mais ao engravidar e, em 1785, Mary deixou a escola e foi ter com Fanny para cuidar-lhe, mas sem sucesso. Além disso, seu afastamento da escola levou a seu encerramento. Fanny acabou por falecer, deixando Mary desolada. Esse período de sua vida serviria de inspiração para seu primeiro romance, Mary: A Fiction (1788).

“A primeira de um novo género”

Mary Wollstonecraft em 1790–1, por John Opie

Depois da morte de Fanny, os amigos de Mary ajudaram-na a arranjar um lugar como educadora particular das filhas da família anglo-irlandesa Kingsborough, na Irlanda.

Embora não se desse bem com Lady Kingsborough, as crianças viam-na como uma instrutora inspiradora; mais tarde, Margaret King diria que ela “lhe tinha libertado a mente de todas as suas superstições”. 

Algumas das experiências de Mary naquele ano iriam servir de inspiração para o seu livro de história infantis, Original Stories from Real Life (1788).

Frustrada pela poucas opções de carreira para as mulheres mais pobres, mas respeitáveis — um impedimento que Mary descreve com eloquência no capítulo de Thoughts on the Education of Daughters intitulado “Unfortunate Situation of Females, Fashionably Educated, and Left Without a Fortune” (Situações Pouco Afortunadas das Mulheres, Educadas a Preceito, e Deixadas sem Fortuna) —, ela decidiu, apenas um ano depois como educadora, partir para uma carreira como autora.

Esta escolha foi radical pois, naquela altura, poucas eram as mulheres que podiam viver, apenas, com a escrita. Tal como escreveu à sua irmã Everina em 1787, Mary tentava ser “A primeira de um novo género”. 

Mudou-se para Londres e, apoiada pelo editor liberal Joseph Johnson, encontrou um lugar para trabalhar e viver de forma independente. Aprendeu francês e alemão, e traduziu textos, destacando-se Of the Importance of Religious Opinions de Jacques Necker, e Elements of Morality, for the Use of Children de Christian Gotthilf Salzmann. Mary também fez trabalhos de revisão, principalmente de romances, para a revista de Johnson Analytical Review.

O universo intelectual de Wollstonecraft alargou-se durante este período, com o trabalho de revisão que realizava, e com os novos conhecimentos que estava a fazer: frequentava os famosos jantares de Johnson, e conhecia personagens como o radical Thomas Paine e o filósofo William Godwin.

A primeira vez que Godwin e Wollstonecraft se encontraram, ficaram mutuamente desapontados. Godwin tinha vindo para ouvir Paine, mas Wollstonecraft esteve com ele toda a noite, discordando dele sobre quase qualquer dos assuntos discutidos. Johnson, no entanto, tornou-se mais do que um amigo; ela descreveu-o nas cartas como um pai e um irmão.

Enquanto estava em Londres, Mary teve uma relação com o artista Henry Fuseli, embora ele fosse casado. Ele ficou, como escreveu, extasiada pelo seu talento, “a grandeza do seu espírito, aquela rapidez de compreensão, e aquela encantadora simpatia”. 

Mary uma relação platónica com Fuseli e a sua esposa, mas aquele ficou intimidado e terminou a sua relação com Mary. Depois da rejeição sofrida, Mary decidiu viajar para França para fugir à humilhação do incidente, e para participar nos acontecimentos revolucionários que ela tinha citado em A Vindication of the Rights of Men (1790).

Ela tinha escrito sobre os Rights of Men em resposta à crítica conservadora de Edmund Burke da Revolução Francesa em Reflections on the Revolution in France (1790), tornando-a famosa de um dia para o outro. Mary foi comparada ao controverso teólogo Joseph Priestley, e a Paine, cuja obra Rights of Man (1791) se mostraria como a mais popular das respostas a Burke.

Mary aproveitou as ideias que tinha salientado em Rights of Men, em A Vindication of the Rights of Woman (1792), o seu trabalho mais famoso e influente.

França e Gilbert Imlay

 10 de Agosto, ataque ao Palácio das Tulherias; a violência alastra-se duarante a Revolução Francesa.

Wollstonecraft foi para Paris em Dezembro de 1792, chegando um mês antes da execução de Luís XVI. A França encontrava-se no meio de um turbilhão de violência. Mary procurou por outros visitantes britânicos, tal como Helen Maria Williams, e juntou-se ao círculo de expatriados da cidade.

Tendo acabado, recentemente, de escrever os Direitos da Mulher, Wollstonecraft estava determinada a testar as suas ideias e, no meio de um ambiente intelectual estimulante saído da revolução, passou pela sua relação amorosa mais experimental até à data: Mary conheceu, e apaixonou-se, por Gilbert Imlay, um aventureiro norte-americano.

Se Mary estaria interessada num casamento com ele, não se sabe, o que se sabe é que ele não estava, e parece que ela se terá apaixonado por uma imagem idealizada de Imlay. Embora Wollstonecraft tenha rejeitado a componente sexual das relações nos Direitos da Mulher, Imlay despertou-lhe as suas paixões e o seu interesse pelo sexo.

Pouco tempo depois, ficou grávida e, no dia 14 de Maio de 1794, Mary deu à luz a sua primeira filha, Fanny, o mesmo nome da sua melhor amiga. Wollstonecraft estava em êxtase; escreveu a uma amiga: “A minha Pequenina começou a mamar tão FORTEMENTE que o seu pai acha ser uma insolência [da parte de Mary] ela escrever a segunda parte dos D[irei]tos da Mulher”.

Mary continuou a escrever avidamente, apesar não só da sua gravidez, mas também de ser uma jovem mãe, sozinha, num país estrangeiro, e da crescente instabilidade da Revolução Francesa. Enquanto estava em Le Havre, na região Norte da França, Mary escreveu uma história dos primeiros dias da revolução, An Historical and Moral View of the French Revolution, a qual foi publicada em Londres em Dezembro de 1794.

À medida que a situação piorava, a Grã-Bretanha declarou guerra a França, colocando, assim, os cidadãos britânicos a viver nesse país em situação de grande risco. Para proteger Wollstonecraft, Imlay registou-a como sua esposa em 1793, apesar de de não serem casados.

Alguns dos seus amigos não tiveram tanta sorte; muitos, como Thomas Paine, foram detidos, e alguns deles foram mesmo guilhotinados (as irmãs de Mary pensavam que ela tinha sido detida). Depois de deixar França, ela continuou a referir o seu nome como “Sra. Imlay”, mesmo às suas irmãs, para assim manter a legitimidade sobre a sua filha.

Imlay, descontente com a maneira de pensar de Mary – maternal e muito dedicada à vida doméstica -, acabou por deixá-la. Prometeu regressar a Le Havre para onde Mary foi para dar à luz a sua filha, mas o facto de Imlay ter passado a escrever-lhe menos, e as suas longas ausências, convenceram-na de que ele tinha outra mulher.

As cartas de Mary estão carregadas de queixas e repreensões, explicadas por alguns críticos com a expressão de uma mulher muito deprimida, e, por outros, como resultado das circunstâncias da sua vida – sozinha com uma filha no meio de uma revolução.

Em Inglaterra e William Godwin

Na procura de Imlay, Wollstonecraft regressou a Londres em Abril de 1795, mas aquele rejeitou-a. Em Maio de 1795, tentou suicidar-se, provavelmente com laudanum, mas Imlay salvou-lhe a vida (embora não se saiba como).

Numa última tentativa para conquistar Imlay, Mary dedicou-se aos seus negócios, em particular na Escandinávia, tentanto recuperar algumas das suas perdas. Wollstonecraft realizou esta perigosa viagem tendo apenas como companhia a sua filha e uma criada. Mary fez um relato das suas viagens e dos seus pensamentos nas cartas que enviou a Imlay, sendo que muitos dos quais seriam publicados como Letters Written in Sweden, Norway, and Denmark, em 1796.

Quando regressou a Inglaterra, e tomando consciência de que a sua relação com Imlay tinha terminado, tentou, de novo, suicidar-se, deixando uma carta a Imlay:

Que os meus erros fiquem só para mim! Logo, logo estarei em paz. Quando receberes esta carta, a minha escaldante cabeça estará fria… Saltarei para o Tamisa onde haverá menos probabilidade de o meu corpo ser resgatado da morte que procuro. Deus te abençoe! Que nunca passes pela tormentos que me fizeste passar. Quando finalmente te sentires, o arrependimento encontrará o seu caminho até ao coração; e, entre os negócios e o prazer sensual, farei a minha aparição perante ti, a vítima dos desvios da tua rectidão

James Northcote, William Godwin,óleo sobre tela, 1802, National Portrait Gallery

 Mary saiu numa noite chuvosa e, “para tornar as suas roupas mais pesadas com a água, ela caminhou para um lado e para o outro durante meia hora” antes de saltar para o rio Tamisa, mas um desconhecido viu-a a saltar e conseguiu salvá-la.

Wollstonecraft considerou a sua tentativa de suicídio profundamente racional, e escreveu:

Tenho apenas a lamentar que, quando o sabor amargo da morte passou, regressei à vida e à miséria. Mas uma ideia fixa e determinada não deve ser colocada de lado pela desilusão; nem eu permitirei que isso se torne numa tentativa inquieta, a qual foi um dos actos mais tranquilos da razão.

A este respeito, sou apenas responsável por mim mesma. Se eu me importasse com o que é chamado de reputação, então será por outras razões que devo ser desonrada.

De forma gradual, Wollstonecraft regressou à sua vida literária, ficando envolvida, de novo, no circulo literário de Joseph Johnson, em particular com Mary Hays, Elizabeth Inchbald e Sarah Siddons, através de William Godwin. O namoro entre Godwin e Wollstonecraft começou lentamente, mas acabou por se tornar numa relação amorosa muito apaixonada.

Godwin tinha lido as Letters Written in Sweden, Norway, and Denmark e, mais tarde, escreveria que “Se houvesse um livro que tivesse sido escrito para por forma a apaixonar um homem pelo seu autor, parece-me que seria este. Ela transmite os seus arrependimentos de uma maneira que nos preenche com a sua melancolia, e nos enche de ternura, ao mesmo tempo que nos mostra a sua genialidade que, por sua vez, nos faz admirá-la.

“Quando Mary ficou grávida, decidiram casar para que o seu filho fosse legítimo. O seu casamento revelou que Mary nunca tinha sido casada com Imlay, e, como resultado disso, ela e Godwin perderam muitos amigos. Godwin foi criticado pois tinha defendido a abolição do casamento no seu tratado filosófico Political Justice. 

Depois do seu casamento em 29 de Março de 1797, mudaram-se para duas casas contíguas, conhecidas como The Polygon, para que ambos mantivessem a sua independência; era habitual comunicarem-se por carta. Segundo eles, a sua relação foi estável e feliz, embora tivesse sido curta.

 

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