Anarquismo Cristão

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 O Anarquismo cristão (também conhecido como cristianismo libertário) com base nos ensinamentos de Jesus defende que a única autoridade legítima é Deus e repudia qualquer autoridade secular.

Alguns anarquistas cristãos se opõem ao uso da violência tanto para ataque como para defesa. baseados no Sermão do Monte, estes tendem a ser pacifistas e contrários a guerras e violência. Essa ideia é baseada na recomendação de Jesus para “dar-lhe a outra face” presente em Mateus 5:38-42, ou seja, resistir ao mal sem ser violento, não ser violento nem em legítima defesa.

Contudo, vertentes libertárias como a dos taboritas, sob o comando militar de Jan Zizka, baseadas em passagens como Evangelho de Mateus 10:34, Evangelho de Lucas 22:36, Eclesiastes 3:1-10, entre outras, não hesitaram em fazer uso da força.

Os anarquistas cristãos se opõem a todo tipo de tirania local ou global, sugerem que há plena compatibilidade entre anarquismo e cristianismo, e argumentam que uma das razões pelas quais Jesus foi perseguido pelo governo romano, pelos líderes religiosos e pelo Sinédrio, foi porque foi visto como um anarquista, como uma ameaça ao status quo. Para eles, a liberdade é justificada espiritualmente através dos ensinamentos de Jesus, e que, na história, o desvio desses ensinamentos foi promovido principalmente por Constantino.

Leon Tolstói, em seu livro O Reino de Deus está em vós, idealiza uma sociedade baseada na compaixão e em princípios não-violentos. A obra desse escritor russo influenciou Gandhi na luta pela independência da Índia e Martin Luther King nos Estados Unidos da América na luta pela emancipação de pobres, negros e mulheres.

Tolstói acreditava que para a efetiva destruição do Estado bastava o não pagamento de impostos e a abstenção do serviço militar. Adin Ballou e Ammon Hennacy defenderam idéias semelhantes.

Jacques Ellul embora recomendasse a atitude de Jesus de seguir “como ovelha para o matadouro” como ideal para o cristão, não deixou de colaborar com a resistência francesa contra a ocupação nazista promovida por Adolf Hitler.

Os primeiros cristãos se opuseram ao primado do Estado: “Devemos obedecer a Deus como governante no lugar de homens” ( Atos 4:19, 5:29, 1 Coríntios 6: 1-6); “E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo”. (Colossenses 2:15). Além disso, algumas comunidades cristãs primitivas parecem ter praticado uma espécie de comunismo anarquista. Os integrantes da comunidade de Jerusalém descrita em Atos compartilhavam o trabalho e dinheiro de forma equivalente entre seus membros.

Alguns anarquistas cristãos, como Kevin Craig, insistem que essas comunidades estavam centradas no amor verdadeiro e se preocupavam umas com as outras em vez de se preocuparem com uma liturgia. Eles também alegam que a razão pela qual os primeiros cristãos foram perseguidos não era porque adoravam a Jesus Cristo, mas porque se recusavam a adorar os ídolos humanos que reivindicavam o status divino.

Dado que eles se recusaram a adorar o Imperador romano, eles se recusaram a jurar qualquer ato de fidelidade ao Império. Por exemplo, quando solicitado que eles jurassem pelo nome do imperador, Speratus, porta-voz dos mártires sicelitanos, disse: “Eu reconheço não o império deste mundo… pois eu sei que meu Senhor é o Rei dos reis e imperador de todas as nações.”

Para os anarquistas cristãos, o momento que sintetizou a degeneração do cristianismo foi a conversão do Imperador Constantino após a sua vitória na Batalha da Ponte Mílvia em 312.

Após este evento, o cristianismo foi legalizado pelo Édito de Milão de 313, fato que marcou a transformação de uma igreja humilde governada de baixo para cima para a edificação de uma organização autoritária que governava de cima para baixo.

Os anarquistas cristãos apontam o édito como o ponto inicial da “mudança constantiniana”, na qual o cristianismo gradualmente foi se mesclando com a vontade da elite dominante, e terminou como a Igreja Estadual do Império Romano. Sob essa perspectiva, o Édito também foi responsável pelas Cruzadas, pela Inquisição e pelas Guerras religiosas na França.

Após a conversão de Constantino o pacifismo cristão e o anarquismo foram abandonados por quase um milênio até o surgimento de pensadores como Francisco de Assis e Petr Chelčický. Francisco de Assis (c.1181-1226) era um pregador ascético, pacifista e amante da natureza. Como filho de um rico comerciante de roupas, ele desfrutou de uma vida privilegiada, mas se alistou como soldado e, a partir de então, mudou radicalmente suas crenças e práticas após um despertar espiritual. Francisco tornou-se um pacifista e evitou bens materiais, tentando seguir os passos de Jesus. Peter Maurin, co-fundador do Movimento dos Trabalhadores Católicos, foi fortemente influenciado por Francisco de Assis. O trabalho de Petr Chelčický (c.1390-c.1460), especificamente The Net of Faith , influenciou Leo Tolstoy e é referenciado em seu livro O reino de deus esta em vós.

Vários autores socialistas libertários identificaram o do reformador social protestante inglês Gerrard Winstanley bem como o ativismo social de seu grupo, os escavadores, como coerentes com o anarquismo cristão.

Para o historiador anarquista George Woodcock”Embora (Pierre Joseph) Proudhon tenh sido o primeiro escritor a se chamar anarquista, pelo menos dois predecessores delinearam sistemas que contêm todos os elementos básicos do anarquismo. O primeiro foi Gerrard Winstanley (1609-c. 1660). Winstanley e seus seguidores protestaram em nome de um cristianismo radical contra a crise econômica que se seguiu à Guerra civil inglesa e contra a desigualdade que os grandes do novo exército pareciam querer preservar”

En 1649-1650, os escavadores tentaram criar comunidades baseadas no trabalho na partilha de bens ao sul da Inglaterra. As comunidades falharam após serem fortemente repreendidas pelas autoridades inglesas, mas uma série de panfletos de Winstanley foram preservados dos quais Nova Lei da Justiça (1649) foi o mais importante. Sustentando um cristianismo racional, Winstanley comparou Cristo com “a liberdade universal” e sustentou a natureza universalmente corruptora da autoridade. Ele traçou um vínculo entre a instituição da propriedade e a falta de liberdade. Para Murray Bookchin “No mundo moderno, o anarquismo apareceu pela primeira vez como um movimento do campesinato e simpatizante face ao declínio das instituições feudais. Na Alemanha, o principal porta-voz das guerras camponesas foi Thomas Müntzer; na Inglaterra, Gerrard Winstanley. Os conceitos de Müntzer e Winstanley estavam perfeitamente adaptados às necessidades de seu tempo – um período histórico em que a maioria da população vivia no campo e quando as forças revolucionárias mais militantes vieram do meio agrário. Seria muito difícil argumentar se Müntzer e Winstanley poderiam ter alcançado seus ideais. O que é de importância real é que eles foram proeminentes; seus conceitos anarquistas surgiram naturalmente da sociedade rural”

Anarquistas-cristãos modernos

Leo Tolstoy (1828-1910) escreveu extensivamente sobre princípios anarquistas. De acordo com o autor, ele chegou a esses princípios por meio da fé cristã. Sua trajetória é narrada nas obras O reino de deus esta em vósA lei da violência e a lei do amor e Cristianismo e Patriotismo onde Tolsói critica o governo e a Igreja em geral. O reino de deus esta em vós é considerado o texto-chave na formulação do anarquismo cristão. Tolstoi procurou separar o cristianismo ortodoxo russo – que foi fundido com o Estado – do que ele acreditava ser a verdadeira mensagem de Jesus contida nos Evangelhos, baseando-se fundamentalmente no Sermão da montanha. Tolstoi considera que todos os governos bélicos apoiados pela igreja são uma afronta aos princípios cristãos da não-violência e da não-resistência. Embora Tolstoi nunca tenha usado o termo “anarquismo cristão, Tolstói defendia uma sociedade baseada na compaixão, pacifismo e liberdade. Tolstoi era um pacifista e vegetariano. Sua visão para uma sociedade ideal era uma espécie de versão anarquista do georgismo, que ele menciona especificamente em sua novela Ressurreição.

Nikolai Berdyaev (1874 – 1948), filósofo cristão ortodoxo, conhecido pelo pseudônimo de filósofo da liberdade, foi um existencialista cristão. Conhecido pela obra O Reino de Deus é anarquia, ele acreditava que a liberdade final vem de Deus, em oposição direta aos anarquistas ateístas, como Mikhail Bakunin, que viam Deus como representante simbólico da escravidão (simbólica) da humanidade.

Mário Ferreira dos Santos (1907 – 1968), filósofo brasileiro, enxergava no cristianismo uma filosofia superior de viés prática libertário. Para ele o sentimento cristão poderia ser definido como vontade de superação, sendo assim, seria impossível pensar em socialismo sem liberdade e uma ética fundamentalmente cristã. Mário via o cristianismo como algo aplicável em qualquer circunstância possível, independentemente da nação ou da época.

Jacques Ellul (1912 – 1994) foi um filósofo, sociólogo, teólogo francês. Escritor prolífico, ele escreveu 58 livros e mais de mil artigos ao longo de sua vida, abordando, sobretudo a propaganda, o impacto da tecnologia sobre a sociedade e a interação entre religião e política. O tema dominante de seu trabalho foi a ameaça à liberdade humana e à religião diante da ameaça tecnológica.

Philip Berrigan (1923 – 2002) foi um pacifista, anarquista e ex-padre católico norte americano. Berrigan foi conhecido por seu ativismo contra qualquer tipo de guerra.

Dorothy Day (1897 – 1980) foi uma jornalista, ativista social, anarquista note-americana. Durante a década de 1930 Day trabalhou para estabelecer um Movimento Operário Católico não-violento e pacifista com o objetivo de ajudar os pobres e desabrigados com ações diretas e não-violentas.

Ammon Ashford Hennacy (1893 – 1970) foi um pacifista americano, anarquista cristão, ativista social e membro do Movimento dos Trabalhadores Católicos e do Industrial Workers of the World. Ele criou o “Joe Hill House of Hospitality”, em Salt Lake City, Utah. Crítico das tributações estatais, Hennacy defendia e praticava a resistência fiscal.

Outros anarquistas cristãos modernos

  • Ivan Illich
  • Adin Ballou
  • Charles Erskine Scott Wood
  • Léonce Crenier
  • Peter Maurin
  • Thomas J. Hagerty
  • Amilton Farias
  • Vernard Eller
  • William B. Greene

Comunidades
Numerosos sites e movimentos de anarquistas cristãos surgiram na internet nos últimos anos. Os principais são: O Instituto Cristão Libertário, fundado por Norman Horn, A Pinch of Salt, uma revista anarquista cristã dos anos 1980, revivida em 2006 por Keith Hebden em formato eletrônico, Vine & Fig Tree revista fundada por Kevin Craig em 1982; Radicais de Jesus fundado pelos menonitas Nekeisha e Andy Alexis-Baker em 2000 e atualmente organizados por Nekeisha Alexis-Baker, Joanna Shenk e Mark Van Steenwyk Lost Religion of Jesus criado por Adam Clark em 2005; Anarquistas cristãos criados por Jason Barr em 2006; O Trabalhador Mórmon, um blog fundado em 2007 por William Van Wagenen a associação ASIRAfundado por Alexandre Christoyannopoulos em 2008 e o NewForLife Projeto fundado em 2009 em Foz do Iguaçu por Amilton Farias.

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